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Crise na chinesa Evergrande: Um risco para a economia mundial?

Na última semana muito se falou sobre a crescente crise na China devido às preocupações relativas à Evergrande e as repercussões nos demais mercados globais. A incorporadora acumulou uma dívida superior a US$ 300 bilhões e encontra extrema dificuldade para honrar os seus débitos.

Com a possibilidade do colapso da empresa, existe também um grande risco de impacto no sistema financeiro. Atualmente existem 130 bancos e 120 não bancos expostos a papéis (ações e/ou bonds) da Evergrande, ou seja, são 250 empresas que podem ter perdas significativas ou até mesmo irem à falência no pior cenário.

Alguns especialistas se posicionaram quanto à questão, como é o caso do David Llewellyn-Smith, estrategista-líder da Nucleus Wealth, que exprimiu sua opinião recentemente em um artigo:

“Essa dívida monstruosa de US$ 300 bilhões é potencialmente o Lehmann Brothers da China, negociando dívidas de alto risco com contrapartes chinesas (e globais) em spreads que implicam em insolvência. Não existe um cenário realista para a reestruturação de Evergrande em que a deslocação do mercado seja evitada. Trata-se apenas de quanta pressão o governo chinês pode suportar.”

Durante o Fórum Econômico de Greenwich na quarta-feira (22/09/21), o fundador da Bridgewater Associates e gestor do maior fundo hedge do mundo, Ray Dalio, minimizou a possibilidade de calote da dívida por parte da empresa Evergrande, informando que a situação não é equivalente ao colapso do banco de investimentos Lehman Brothers em 2008 e que a situação é “administrável”.

Ming Tan, diretor da agência de classificação de crédito Standard & Poor ‘s (S&P), acredita que o Governo chinês irá intervir para reestruturar Evergrande. Ele disse que o calote de Evergrande em suas dívidas dificilmente causaria uma crise de crédito na segunda maior economia do mundo “por si só”. “A exposição dos bancos a Evergrande é bastante distribuída por todo o setor”, informou. O principal risco para o sistema financeiro da China seria “outros desenvolvedores altamente alavancados entrarem em default ao mesmo tempo”, acrescentou.

A situação da Evergrande é apenas um dos exageros que foram cometidos nos últimos anos, além dela, existem diversos negócios e empreendimentos que surgiram graças a uma dinâmica de juros baratos, são iniciativas que não se sustentam em um cenário com os juros em patamares mais elevados.

O mercado global de dívidas e de moedas mostra fortes sinais de deterioração e ao mesmo tempo se mostra complacente perante ao cenário. Vale lembrar que em diversos outros acontecimentos, como por exemplo no surto sanitário que estamos presenciando, narrativas que minimizaram os impactos e eventuais efeitos de segunda ordem se mostraram errôneas e as consequências foram gravíssimas.

Impactos diretos no mercado de criptomoedas

Jim Cramer, apresentador do programa Mad Money da CNBC, disse que as questões da dívida da Evergrande provavelmente impactarão o mercado de criptomoedas, uma vez que cerca de metade das reservas que sustentam a stablecoin Tether (USDT) são mantidas em Commercial papers.

Fonte: Forbes.com

A Tether é a emissora da maior stablecoin do mercado de criptomoedas, a USDT, a qual, atualmente, tem uma capitalização de mercado aproximadamente de US$ 68 bilhões e possui o maior volume diário. Existem uma variedade de ativos como garantia da stablecoin, sendo composta em sua maioria por notas promissórias, certificados de depósito e notas de tesouro representando quase metade dos ativos segundo o mais recente relatório de garantias da emissora. Outros ativos incluem empréstimos, títulos, dinheiro e criptomoedas.

A emissora de stablecoin Tether (USDT) afirmou que não possui qualquer nota promissória emitida pela Evergrande. “A Tether não possui qualquer nota promissória, débito ou valores mobiliários emitidos pela Evergrande e nunca possuiu”, disse um porta-voz da Tether. “Conforme indicamos em nossas declarações e em nosso mais recente relatório datado de 30 de junho de 2021, a grande maioria das notas promissórias que a Tether possui está classificada pelo nível A-2 e maior.”

De acordo com a Reuters, a gigante chinesa é a maior emissora de notas promissórias do mercado chinês. Dessa forma, ainda que a empresa Tether afirme não possuir notas promissórias da Evergrande, a repercussão do mercado em si, poderá acarretar em grandes consequências, levando a emissora a eventuais perdas em seus papéis que são utilizados como lastro. Esse é um evento que tem potencial para desencadear a perda da confiança no ecossistema das stable coins o que pode respingar no mercado de criptomoedas como um todo.

Por um outro lado, o mercado de stablecoins evoluiu bastante desde a criação da USDT. Existem alternativas mais sólidas do que o USDT, então, mesmo que a Tether sofra com o episódio da Evergrande, pode ser uma oportunidade para que algum outro token ganhe o papel de principal stablecoin. Essa é uma excelente oportunidade para demonstrar o valor desse novo sistema.
Fonte: Elaborado pelo próprio autor – Dados https://coinmarketcap.com/

Também vale lembrar que o Bitcoin é a primeira criptomoeda existente, e não depende de nenhum outro par para existir ou funcionar. As stablecoins surgiram graças a oportunidade de utilizar a tecnologia blockchain para facilitar as transações envolvendo moedas tradicionais, porém, quando observamos o valor de mercado total das criptomoedas, observamos que as principais stablecoins representam apenas 1,24% do total e a USDT apenas 0,69%.
Fonte: Elaborado pelo próprio autor – Dados https://coinmarketcap.com/

Impactos no mercado em geral

Analisando o mercado de crédito como um todo, quando ocorre algum evento de calote, tradicionalmente acontece uma sequência de contágio que começa nos títulos de alto risco, se espalhando para títulos com melhor classificação de crédito até chegar nos títulos soberanos. Por esse motivo, vale a pena acompanhar de perto os CDS (servem como uma espécie de seguro contra possíveis calotes de pagamentos de títulos públicos), principalmente da China, por esta ótica, é possível analisar o nível de contágio dos títulos.

Um outro mecanismo de proteção de crédito é o Keepwell, ele é um acordo que oferece garantias de solvência e de boa saúde financeira. Tal mecanismo foi vendido como uma boa proteção, e justificou boas notas de crédito por parte das agências de risco, o que atraiu muitos investidores estrangeiros para títulos chineses.

A liquidação total da Evergrande representaria a quebra desses acordos e, segundo o banco UBS, tal violação tem o potencial de forçar as agências de risco a revisarem suas classificações de crédito. Caso isso aconteça, fundos que só podem investir em papéis com determinadas classificações de crédito, podem ser obrigados a encerrarem suas posições. Uma dinâmica nesse sentido em grande escala pode desencadear uma nova grande crise de liquidez, que por sua vez, aceleraria o processo de uma crise de solvência.

O cenário macroeconômico mundial apresenta vários sinais de pressão inflacionária, e a narrativa do Banco Central Americano, o FED, de que a inflação é transitória vem perdendo força um dia após o outro. Não à toa, o presidente Jerome Powell comunicou que a redução dos estímulos monetários se iniciará em novembro deste ano. O grande ponto é que essas medidas trazem sérios impactos na precificação dos ativos (que foram distorcidos em grande parte por conta disso) e na própria atividade econômica no curto prazo.

Apesar de todas as vulnerabilidades e instabilidades apresentadas pela economia americana, os momentos de incerteza e insegurança geram um movimento chamado “fly to quality”, no qual os investidores encerram suas posições de risco e compram ativos de extrema segurança, como por exemplo os títulos de dívida do governo americano. Sendo assim, esse é um movimento que traz o fortalecimento do dólar perante as principais moedas, sendo ainda mais contundente em moedas fracas como o Real.

Conclusão

Os atuais acontecimentos acendem um sinal amarelo para uma nova crise global e a exposição em reservas de valor como metais preciosos e bitcoin faz cada vez mais sentido. É importante lembrar que o Bitcoin surgiu em um momento similar ao que estamos vivenciando, e ele foi uma resposta clara às medidas tomadas pelos bancos centrais. O ativo se encontra em uma etapa intermediária de um grande ciclo de alta e tende a oferecer bons retornos em um horizonte de médio prazo. Entretanto, a criptomoeda lida com vulnerabilidades de curto prazo e descontinuidades de preço nesse horizonte de tempo podem acontecer.

A byebnk mantém firme sua posição no Bitcoin sob uma perspectiva de longo prazo, independente das oscilações de preço no curto prazo.

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